Tinha sido tão bonito, nos velhos tempos, sentir-se isolado num estilo imperial de vida que autorizava os sonetos, o diálogo com os astros, as meditações nas noites portenhas, a serenidade goethiana na tertúlia do Colón ou nos conferências dos mestres estrangeiros. Ainda era rodeado por um mundo que vivia assim, que se queria assim, deliberadamente bonito e enfeitado, arquitetônico. Para sentir a diferença que agora o separava desse columbário, Oliveira só teria de de arremedar, com um sorriso áspero, as decantadas frases e os ritmos luxuosos de ontem, os modos áulicos de dizer e de calar. Em Buenos Aires, capital do medo, voltava a sentir-se rodeado por esse discreto conformismo de arestas que se costuma chamar bom senso e, além disso, por essa afirmação de suficiência que engolfava as vozes dos jovens e dos velhos, a sua aceitação do imediato como verdadeiro, do transitório como o, como o, como o (diante do espelho, com o tubo de dentifrício no punho que se fechava, Oliveira, mais uma vez, ria em sua cara e, em vez de meter a escova na boca, aproximava-a da sua imagem e, minuciosamente, untava-lhe a falsa boca com pasta cor-de-rosa, desenhando um coração em plena boca, mãos, pés, letras, obscenidades; corria pelo espelho com a escova e com golpes do tubo, torcendo-se de riso, até que Gekrepten entrava, desolada, com uma esponja, etecétera).
E é assim como aqueles que nos iluminam são os cegos.
Assim é como alguém, sem saber, chega a mostrar-te irrefutavelmente um caminho que, por sua parte, seria incapaz de seguir. A Maga jamais saberá como o seu dedo apontava para a fina moldura que cerca o espelho, até que ponto certos silêncios, certas atenções absurdas, certas corridas de centopéia deslumbrada eram a senha para o meu sólido estar-em-mim-mesmo, que era um estar em nenhuma parte. Enfim, isso da fina moldura… Se queres ser feliz, como dizes/ Não poetiza, Horacio, não poetiza.
Visto objetivamente: ela era incapaz de me mostrar qualquer coisa dentro do meu terreno, até mesmo no seu girava desconcertadamente, tateando, apalpando. Um morcego frenético, o desenho da mosca no ar do quarto. De repente, para mim, ali sentado, olhando para ela, um indício, uma suspeita. Sem que ela o soubesse, a razão das suas lágrimas ou a ordem das suas compras ou a sua maneira de fritar qualquer comida eram sinais. Morelli falava de algo assim quando escrevia: “Leitura de Heisenberg até o meio-dia, anotações, fichas. O filho da porteira me traz a correspondência e falamos de um modelo de avião que ele está montando na cozinha de sua casa. Enquanto me conta isto, dá dois saltos sobre o pé esquerdo, três sobre o direito, dois sobre o esquerdo. Pergunto-lhe por que dois e três, e não dois e dois ou três e três. Olha-me surpreendido, não compreende. Sensação de que Heisenberg e eu estamos do outro lado de um território, enquanto o garoto continua a cavalo, com um pé em cada um, sem saber, e que brevemente estará apenas do nosso lado e toda a comunicação terá sido perdida. Comunicação com quê, para quê? Enfim, continuemos a ler; talvez Heisenberg…”
Morelliana.
Penso nos gestos esquecidos, nos muitos salamaleques e palavras dos nossos avós, pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um atrás do outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela sobre a mesa e, para brincar, acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar causado pelo movimento ia apagá-la e, então, vi levantar-se sozinha a minha mão esquerda, abrigando e protegendo a chama como uma cortina viva que afastava o ar. Enquanto o fogo se endireitava, outra vez alerta, pensei que esse gesto fora o gesto de todos nós (pensei nós e pensei bem, ou senti bem) durante milhares de anos, durante a Idade do Fogo, até que a trocaram pela luz elétrica. Imaginei outros gestos, o gesto das mulheres levantando a ponta da saia, o gesto dos homens procurando o punho da espada. Como as palavras perdidas da infância, escutadas pela última vez na boca dos velhos que iam morrendo. EDm minha casa já ninguém diz “a cômoda de cânfora”, já ninguém fala das “trebes” - as trébedes. Como as músicas do momento, as valsas dos anos vinte, as polcas que enterneciam nossos avós.
Penso nesses objetos, nessas caixas, nesses utensílios que aparecem às vezes em galpões, em cozinhas ou esconderijos, e cujo uso já ninguém é capaz de explicar. Vaidade de crer que compreendemos as obras do tempo: o tempo enterra seus mortos e guarda as chaves. Somente nos sonhos, na poesia, no jogo - acender uma vela, andar com ela pelo corredor -, aproximamo-nos às vezes do que fomos antes de ser isto que ninguém sabe se somos.
Escrito por Morelli no hospital:
O maior mérito de meus antepassados é estarem mortos; espero, modesta mas orgulhosamente, o momento de herdá-lo. Tenho amigos que não deixarão de fazer-me uma estátua na qual me representarão deitado de bruços no ato de afundar-me num charco com autênticas rãzinhas. Metendo uma moeda numa ranhura, poderão ver-me cuspir na água, e as pequenas rãs se agitarão alvoroçadas, coaxando durante um minuto e meio, tempo suficiente para que a estátua perca todo interesse.
Por que tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E daí? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto, as perguntas nos afastam vertiginosamente das respostas. Que epifania poderemos esperar se estamos nos afogando na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo também é preciso lanças a janela e nós com ela. É a morte, ou sair voando. É preciso fazê-lo de qualquer modo. É preciso ter coragem para entrar no meio das festas e colocar sobre a cabeça da esfuziante dona da casa um belo sapo verde, presente da noite, e assistir sem horror à vingança dos lacaios.
à hora da sesta, todos dormiam, era fácil levantar-se da cama sem acordar sua mãe, engatinhar até a porta, sair devagar cheirando com avidez a terra úmida do chão, escapar pela porta até as pastagens do fundo; os salgueiros estavam cobertos de bichos-de-cesto, Ireneo escolhia um bem grande, sentava-se ao lado de um formigueiro e começava a apertar pouco a pouco o casulo até que o lagarto punha a cabeça pela golilha sedosa e, então, era preciso segurá-lo delicadamente pela pele do pescoço como um gato, puxar sem muita força para não o machucar, e o lagarto ficava nu, retorcendo-se comicamente no ar; Ireneo o colocava ao lado do formigueiro e instalava-se na sombra, de bruços, esperando; àquela hora, as formigas negras trabalhavam furiosamente, cortando o pasto e carregando bichos mortos ou vivos, trazidos de todos os lugares; em seguida, uma pesquisadora avistava o lagarto, seu corpo contorcendo-se grotescamente, apalpava-o com as antenas, como se não pudesse convencer-se de tanta sorte, corria de um lado para o outro, roçando as antenas das outras formigas e, um minuto mais tarde, o lagarto estava rodeado, montado, inutilmente se retorcia para livrar-se das pinças que se cravavam na sua pele, enquanto as formigas o arrastavam em direção ao formigueiro; Ireneo deliciava-se sobretudo com a perplexidade das formigas quando não conseguiam fazer com que o lagarto entrasse pela boca do formigueiro; a brincadeira consistia em escolher um lagarto maior do que a entrada do formigueiro, as formigas eram estúpidas e não compreendiam, puxavam o lagarto por todos os lados, mas o lagarto se retorcia furiosamente, devia ser horrível o que sentia, com as patas e as pinças das formigas sobre todo os seu corpo, nos olhos e na pele, debatia-se, querendo livrar-se, e isso era pior porque vinham mais formigas, algumas verdadeiramente enraivecidas, que lhe cravavam as pinças com mais força e não o soltavam até conseguir que a cara do lagarto se enterrasse um pouco no poço do formigueiro, e outras, que vinham do fundo, deviam estar puxando com todas as forças para enfiá-lo; Ireneo gostaria de poder estar dentro do formigueiro para ver como as formigas puxavam pelo lagarto, metendo-lhe as pinças nos olhos e na boca e puxando com todas as suas forças até enfiá-lo inteiramente, até levá-lo para as profundezas e matá-lo e comê-lo.
Bebê Rocamadour, bebê, bebê. Rocamadour:
Rocamadour, já sei que és como um espelho. Estás dormindo ou olhando os pés. Eu aqui seguro um espelho e creio que és tu. Mas não acredito nisso, escrevo-te porque não sabes ler. Se soubesses, não te escreveria ou escreveria coisas importantes. O dia chegará em que terei de escrever para recomendar que tu te comportes ou te agasalhes. Parece incrível que alguma vez, Rocamadour. Agora, somente te escrevo no espelho, de vez em quando tenho que secar o dedo, porque fica fico molhado com as lágrimas. Por que, Rocamadour? Não estou triste, sua mãe é uma tola, queimei o borsch que tinha feito para Horacio, sabes muito bem quem é Horacio, Rocamadour, é aquele senhor que, no domingo, levou-te um coelhinho de feltro e que se aborrecia muito porque tu e eu falávamos tanto e ele queria voltar para Paris; foi então que começaste a chorar e ele te mostrou como o coelhinho mexia as orelhas; nesse momento, ele ficou muito bonito, estou falando de Horacio, algum dia compreenderás, Rocamadour.
Rocamadour, é ridículo chorar assim por ter queimado o borsch. O quarto está cheio de beterrabas, Rocamadour, tu te divertirias se visses os pedaços de beterraba e o creme, tudo pelo chão. Felizmente, quando Horacio chegar, eu já terei limpado, mas queria escrever-te antes, chorar assim é uma coisa ridícula, as caçarolas ficam moles, vemos reflexos nos vidros das janelas e já não se ouve cantar a garota do andar de cima, que canta o dia todo Les amants du Havre. Quando estivermos juntos, prometo cantá-la para ti. Puisque la terre est ronde, mon amour t’en fais pas, mon amour t’en fait pas… Horacio a assobia de noite, quando escreve ou desenha. Tu gostarias dela, Rocamadour. Tu gostarias, sim. Horacio acha que eu falo sempre com muita intimidade com todo mundo, como Perico, mas no Uruguai é tudo diferente. Perico é aquele senhor que não te levou nada no outro dia, mas que falava tanto das crianças e da comida. Sabe muitas coisas, um dia vais ter muito respeito por ele, Rocamadour, e serás um bobo, no fundo, se lhe tiveres respeito, se lhe tiveres respeito, Rocamadour.
Rocamadour, Mme. Irène não está contente por seres tão bonito, tão alegre, tão chorão e tão mijão. Ela diz que está tudo perfeito e que és uma criança encantadora, mas sempre que fala esconde as mãos nos bolsos do avental, como fazem certos animais malignos, Rocamadour, e isso me dá medo. Quando falei desse medo a Horacio, ele riu muito, mas não entendeu o que eu sinto e que, embora não haja nenhum animal maligno que esconda as mãos, eu sinto medo, não sei bem o que sinto, não sei explicar. Rocamadour, como eu gostaria de poder ler nos teus olhinhos tudo o que te aconteceu nestes últimos quinze dias, momento por momento. Parece-me que vou procurar outra nourrice, apesar de Horacio ficar furioso e me dizer, mas não estás interessado no que ele me diz. Outra nourrice que fale menos, não importa que diga que és ruim ou que choras de noite ou que não queres comer, não importa que, quando me disser, eu sinta que não é maligna, que está me dizendo algo que não pode te fazer mal. É tudo tão estranho, Rocamadour, por exemplo, eu gosto de dizer teu nome e de escrevê-lo. Cada vez que o faço, parece-me que estou tocando na ponta do teu nariz e que estás rindo. Em troca, Mme. Irène nunca te chama pelo nome, diz l’enfant, imagina, sequer diz le gosse, diz l’enfant, é como se calçasse luvas de borracha para falar. É possível que as tenhas nas mãos, e por isso mete as mãos no bolso, dizendo que és tão bom e tão bonito.
Há uma coisa que se chama tempo, Rocamadour, é como um bicho que anda e anda. Não posso explicar porque és ainda muito pequeno, mas quero dizer que Horacio vai chegar daqui a pouco. Achas que devo deixar ele ler esta carta, para que também te escreva qualquer coisa? Não, eu também não desejaria que outra pessoa lesse uma carta que fosse somente para mim. Um grande segredo entre os dois, Rocamadour. Já não choro mais, estou contente, mas é tão difícil entender as coisas, preciso de tanto tempo para entender um pouco tudo aquilo que Horacio e os outros compreendem tão depressa; mas eles, que tudo compreendem tão bem, não podem compreender nem a ti nem a mim, não compreendem que eu não posso te ter comigo, te dar de comer e trocar tuas fraldas, te fazer dormir ou brincar, não compreendem e, na realidade, pouco se importam. Só eu, que tanto me importo, sei que não posso te ter comigo, sei que isso é muito ruim para nós dois, sei que tenho de estar sozinha com Horacio, viver com Horacio, quem sabe até quando, ajudando-o a procurar o que ele procura e que tu também procurarás, Rocamadour, porque serás um homem e também procurarás como um grande tolo.
É assim, Rocamadour: Em Paris, somos como cogumelos, crescemos nos corrimões das escadas, em quartos escuros onde cheira a gordura, onde a gente faz amor o tempo todo e, depois, frita ovos e põe discos de Vivaldi, acende cigarros e fala como Horacio, Gregorovius e Wong e eu, Rocamadour, e como Perico e Ronald e Babs, todos nós fazemos amor e fritamos ovos e fumamos, ah!, nem podes imaginar tudo o que fumamos, o tanto que fazemos amor, parados, deitados, de joelhos, com as mãos, com as bocas, chorando ou cantando, e lá fora existe de tudo, as janelas dão para o ar e isso começa com um pardal ou uma goteira, aqui chove muito, Rocamadour, muito mais do que no campo, e as coisas enferrujam, os canos, as patas dos pombos, os arames com que Horacio fabrica esculturas. Quase não temos roupa, precisamos de tão pouco, um bom casaco, uns sapatos nos quais não entre água, somos muito sujos, todo mundo é muito sujo e bonito em Paris, Rocamadour, as camas têm um cheiro de noite e muitos livros, Horacio adormece e o livro vai parar debaixo da cama, temos brigas horríveis porque os livros não aparecem e Horacio pensa que Ossip os roubou, até que um dia aparecem, e, então, rimos muito, quase não temos lugar para guardar as coisas, sequer temos outro par de sapatos, Rocamadour, quando queremos pôr uma bacia no chão temos que empurrar a vitrola para um canto, não podemos colocá-la em cima da mesa porque ela está sempre coberta por livros. Eu não poderia te ter aqui, embora sejas tão pequeno, não caberias em nenhum lugar, esbarrarias na parede. Quando penso nisso, começo sempre a chorar, Horacio não entende, pensa que sou ruim, que faço mal em não te trazer, embora eu saiba que ele não te suportaria por muito tempo. Ninguém suporta as coisas por muito tempo aqui, nem tu e eu, é preciso viver combatendo, é a lei, é a única maneira que vale a pena, mas dói, Rocamadour, e é sujo e amargo, tu não gostarias disso, tu que está sempre vendo os cordeirinhos no campo ou escutas os pássaros pousados no telhado da casa. Horacio diz que sou sentimental, diz também que sou materialista, diz que sou tudo só por não te trazer, ou porque eu quero trazer-te, porque renuncio, porque quero ir ver-te, porque de repente compreendo que não posso ir, porque sou capaz de andar um hora sob e chuva se, em algum bairro que eu não conheça, estiverem passando o Potemkin, e é preciso vê-lo, mesmo que o mundo acabe. Rocamadour, porque o mundo já não importa se não tivermos força para continuarmos escolhendo algo verdadeiro, se estivermos tão arrumados quanto uma gaveta da cômoda e te colocamos num dos lados, o domingo no outro, o amor de mãe, o novo brinquedo, a gare de Montparnasse, o trem, a visita que é preciso fazer. Não tenho vontade de ir, Rocamadour, e sabes que está tudo certo e não ficas triste. Horacio tem razão, por vezes não me preocupo contigo e acho que um dia me agradecerás por isso, quando compreenderes, quando vires que valia a pena que eu fosse como sou. Mas choro da mesma forma, Rocamadour, e te escrevo esta carta porque não sei, porque talvez me engane, porque talvez seja ruim ou esteja doente ou um pouco idiota, não muito, um pouco, mas isso é terrível, só a idéia me dá cólicas, tenho os dedos dos pés metidos completamente para dentro, vou estourar os sapatos se não os descalçar já, e eu te amo tanto, Rocamadour, bebê Rocamadour, dentinho de alho, eu te amo tanto, nariz de açucar, arvorezinha, cavalinho de brinquedo…
Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.